sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um adeus

Eu acho que nenhuma pessoa deveria sofrer para morrer. Se eu fosse escolher uma forma menos ruim para isso, escolheria morrer dormindo, ou com um tiro certeiro. Ou então nem morreria. Quem sabe se a pílula da eterna juventude deixasse de ser uma fábula e passasse a ser um elixir comercializado como a água em garrafinhas pet e tendo a opção de natural ou com gás?

Lembram do avô do meu marido que esteve internado no “excelente” HGP? Pois é. Infelizmente ele foi vencido por abomináveis 10 anos do Mal de Alzheimer. Ele morreu em casa, no último dia 18, nos braços do seu neto e com essa nova neta aqui sentada do lado esquerdo de sua cama. É importante salientar que este é o lado do coração.

O coração, porém, enfraqueceu. Os pulmões também não resistiram. Mas, eu jamais imaginei que testemunhar a morte seria tão doloroso. Talvez eu esteja exagerando, mas ver alguém que amamos morrer diante dos seus olhos sem que nada se possa fazer, dói muito. É impossível de acreditar.

De repente os olhos se abrem numa estranheza indescritível, a face recebe o tom arroxeado que, numa fração de segundos, passa para o branco e, mais rápido ainda: o silêncio invade nossos ouvidos, corações e mentes.

Não conheci o vô Waldo em sua lucidez. Quando conheci meu marido, ele já estava doente. Mesmo assim, convivi por 6 anos com esse homem que tantas histórias incríveis as pessoas tinham para contar. O Wagler, meu marido, era um apaixonado pelo vô. Talvez por isso tenha feito tudo o que fez com tanto carinho e prazer.

Nos primeiros dias do vô morando aqui conosco, eu fui consolada pelo Wagler quando me emocionava ao ver a maneira dedicada que ele o cuidava. Na madrugada de seu falecimento, novamente o Wagler foi quem me consolou. Na verdade ele era o neto, ele é quem deveria ser consolado. Não eu.

Mas isso me fez ver a muralha que meu marido é. Uma muralha de força, de energia e de muito amor. Minha admiração e meu amor por este homem, que já eram imensos, só fez crescer. Vi ele fazer coisas que não é qualquer neto ou filho que faria. Foram madrugadas inteiras acordado medindo febre, controlando vômitos, limpando fraldas. Manhãs dando banho e preparando comida. Desespero quando tinha que ir ao hospital. E muita serenidade quando pôde servir de amparo ao corpo quando este perdeu a vida.

Porém, nada foi maior do que o amor. Nada me impressionou mais do que a dedicação. Nenhum pecado foi maior do que o excesso de zêlo.

Vô, o senhor criou um homem de bem, de caráter puro, com uma honestidade inabalável e com um coração tão grande que não se consegue identificar os limites. Obrigada por ter me ensinado que a vida é muito mais do que conseguir "coisas" e, sim, dedicar-se a quem amamos.

E fique tranqüilo porque aqui na terra os seus ensinamentos serão seguidos. Só tenho um pedido a lhe fazer: se eu e o Wagler tivermos direito a ter um anjo da guarda cuidando de nós, que esse anjo seja o senhor.

Esteja em paz!


3 comentários:

Mamãe disse...

Filha, mais uma vez você me emocionou até às lágrimas pelo texto escrito sobre o vô, Um Adeus.
Me emocionou não apenas pelo texto tão bem ecrito que é tua característica mas,principalmente, pelo sentimento tão verdadeiro que soube expressar através desta mensagem sofrida e bela a duas pessoas queridas e importantes que fizeram e que fazem parte de sua vida. Você também é muito bela( por dentro e por fora) autêntica,verdadeira,sensível, humana.Tenha a certeza que o carinho e os cuidados que vocês dispensaram ao vô, em especial o Wagler,Deus reverterá em bênçãos e graças em suas vidas e o vô será o anjo que estará zelando e protegendo as suas jornadas. Um abraço a vocês juntamente com
minha admiração e carinho. Mamãe

Vinicius Paulino disse...

Professora Fernanda Bruni, desconhecia até então a sua bela história de vida com o seu avô. Mas em uma tentativa de vim aqui e conhecer o seu blog, me vi a ponto de ser tocado por alguém que simplesmente desconheço, talvez porque suas palavras transmitem um pouco do amor que você sente, chega é impossível não se comover. Parabéns pelo gesto de empatia, com certeza Deus lhe recompensará com muitas vitórias. Grande abraço do seu aluno.

Valdenice disse...

Suas palavras de amor e saudade sobre este avô tão querido que se foi deixa em lágrimas qualquer pessoa que tenha um pouco de sensibilidade. E este amor seu e de seu marido são exemplares porque poucos teriam um gesto tão humano de doação e afeto. Li tb o desabafo sobre desacato e este choque de realidade me abre ainda mais os olhos sobretudo nestas eleições quando vemos muitas aberrações parecerem tão naturais no jogo do poder. Continue firme na sua essência e não permita que as mazelas deste mundo te contamine, antes contamine ao mundo com o tudo que vc oferece de bom. E parabéns pela sua linda vovó. Val