domingo, 16 de novembro de 2008

Uma guerreira até o fim


Meus queridos leitores, é com profunda tristeza que venho aqui neste espaço dedicado a reflexões comunicar a todos o falecimento da minha querida vó Oliva. Sim, aquela que comemorou seus 100 anos bem vividos no último mês de setembro. Apesar de ser um comunicado, nem por isso deixa de ser um momento de reflexão.

Isto porque minha avó (incansável) lutou bravamente até o último fiapo de sua vida. Quinze dias após a sua festa, ela foi pega de surpresa por uma pneumonia que a levou ao hospital de onde não saiu mais até a manhã deste domingo. Foram longos dois meses que a maltrataram. Em primeiro lugar, teve que sair de sua casa que sempre foi a marca de união da família para ficar presa a uma cama de hospital.

Depois disso, foram longos períodos tomando injeções, medicamentos até que o apetite passou a lhe faltar. Daí foi introduzida uma sonda que permitia a sua alimentação através do nariz. Sem falar nas assaduras e nas forças das pernas que foram se acabando.

Minha avó ficou quase uma semana sem falar. As palavras que saiam quase que timidamente de sua boca retratavam a indignação de ser judiada em seu final de vida. Ela não se conformava com sua situação, dizia que não merecia passar por aquilo tudo e pedia misericórdia a Deus.

Sim, o seu pedido ia diretamente àquele Deus ao qual ela dedicou toda a sua fé em seu século de vida. Lúcida até o fim, antes de seu último suspiro falou o nome de cada um de seus oito filhos. Minha mãe, Cleomar (outra guerreira), estava segurando sua mão e dava as notícias de cada um deles. Depois disso, tudo acabou.

As minhas viagens a Passo Fundo jamais serão as mesmas. Toda vez que ia para lá tinha como parada certa aquela velha casa de madeira situada no centro da cidade. A única hoje.

O velho chá da tarde, aquela risada gostosa de ouvir, os conselhos, o otimismo, a simplicidade de uma boa mamma italiana e a sabedoria de quem já havia vivido muita coisa foram as maiores riquezas que uma neta como eu poderia ter recebido. Durante muito tempo achei que a vó Oliva era imortal. Ela estava com todos, não faltava uma festa, um batizado, uma formatura, um casamento. Sempre com uma palavra gentil, um sorriso nos lábios e aquele abraço que a gente ficava querendo mais.

Se um dia eu conseguir ver a vida da maneira que ela via, já me considero uma mulher feliz. Acho que agora entendo porque ela gostava mais do sol do que da chuva: uma pessoa com tanto amor no coração só poderia espalhar esse sentimento através da intensidade dos raios solares. Mas quando chovia também não tinha problema. Ela dizia que a chuva "fazia bem prá lavoura".

Enfim, parece piegas falar que ela foi uma lição de vida. Mas ela foi mesmo. Agora, fica a saudade e ficam as lembranças. Eu nunca convivi com um avô, mas tenho certeza de que a minha avó foi a coisa mais fascinante que já tive contato.

O céu com certeza é todo seu agora vó. E tomara que aquele beijo que a senhora um dia me disse ter vontade de dar novamente no vô Higino já tenha acontecido. E que seus olhos agora estejam voltados para todos nós que estamos aqui e que certamente tentaremos encontrar no seu exemplo a coragem para seguir adiante e enfrentar tudo o que a vida for nos oferecer.

Obrigada por tudo, descanse e tenha certeza de que tudo realmente foi muito bom.

3 comentários:

Mamãe e Luti disse...

Fer! Tua mamãe e mana Luti choraram de emoção com esse belo comentário sobre a `vó Oliva. Realmente você soube expressar com conhecimento de causa e sentimento o que a vó era e o que ela representou para nós.O beijo que você pediu para que eu desse por ti para ela foi dado e percebi que ela ficou feliz pela serenidade e paz que demonstrava. Com certeza ela e o vô Igino estão juntos e felizes nos abençoando e protegendo, sentindo-se orgulhosos pela prole que deixaram aqui na terra: filhos, netos e bisnetos e que, certamente, saberão seguir as lições de vida que nos deixaram como herança: honestidade, respeito, trabalho, alegria, dignidade e muito amor.Obrigada filha pelo carinho e por demonstrar que os ensinamentos da vó Oliva já frutificaram e são demonstrados em tuas atitudes e no teu modo viver a vida com plenitude e alegria. Beijos

Tia maria disse...

Linda mensagem Fer. Chorei, me emocionei. Tuas palavras expressam tudo o que a mãe realmente foi e o teu desejo de que saibamos seguir as suas lições de vida são os mesmos que os nossos. Obrigada e um grande abraço

Eunice disse...

r!
Não me surpreende o texto redigido nem sua significação, pois ambos traduzem a realidade. A redação porque vc é competentíssima, emocionalmente " racional", sensível, e uma neta e filha exemplar. A redação porque o que foi dito da vó é a mais pura verdade.Um ser envolto na luz do amor.
Obrigada! Vc segue seus passos.
Um beijo a vc e ao Vagler tb pelas comoventes palavras.
Que Deus os abençoee.
Tia nini